O que há de comum entre o papel da tia e da professora a ponto de, na maioria das escolas, a segunda ser identificada com a primeira?
Muitos professores não hesitarão em justificar tal tratamento como a primeira forma de garantir a afetividade na relação professor-aluno; outros enxergam esse modismo como uma perda da identidade da professora.
Esse costume surgiu no final da década de 50, quando as crianças, filhas de famílias abastadas e também da classe média alta, aprenderam a tratar as senhoras, amigas de seus pais, de tia. A justificativa para tal uso seria a possível dificuldade que as crianças teriam para aprender o nome dessas pessoas. Tratando-as como "tias" o relacionamento das crianças seria facilitado. A partir daí, o hábito se estendeu às professoras dos cursos pré-escolares (década 60) e mais tarde (década 70), às professoras das escolas do antigo primário.
A transposição desse hábito para as classes pré-escolares pode ser entendida também da perspectiva da família, como uma forma das mães tentarem atenuar sentimentos de perda e angústia que as invadem quando necessitam abdicar dos cuidados de seus filhos, por um determinado período de tempo, em favor de seu crescimento, colocando-os na escola. A mãe sente-se aliviada uma vez que a criança será entregue à tia e não à professora. A tia é boazinha e figura já conhecida da criança.
De fato, apesar de a justificativa formal da adoção do costume ser o carinho necessário ao bom desenvolvimento da criança, não é difícil perceber que tratar a professora de tia é muito mais uma dissimulação de uma relação de autoridade do que a solução de um problema afetivo. A criança não se relaciona com a professora da mesma forma que se relaciona com uma tia; e a professora também não trata seus alunos como sobrinhos. As relações são diferentes entre si na sua natureza.
Nesse sentido, utilizar o termo "tia", além de dificultar a identificação da criança com sua família, prejudicando o conhecimento das relações de parentesco, pode também prejudicar a formação de seu auto-conceito.
A criança precisa aprender a se relacionar tanto com a tia, quanto com a professora, e esse relacionamento é distinto. Tratar a professora de tia é forçar a criança a permanecer regressivamente, ligada aos laços familiares.
Considerando estes pontos de vista, nós da FAZENDO ARTE temos buscado garantir ao professor e demais funcionários da escola, a identidade de cada um, seu papel na relação com a criança e com a sociedade num sentido mais amplo e verdadeiro.
Para nós, todas as pessoas de nossa equipe, além de serem pessoas afetivas e continentes na relação com a criança, são também "profissionais", educadores, pontas de lança de todo um trabalho que busca ajudar nossos pequenos a desenvolver-se como um todo.
E todos têm um nome: Cristina,Tanise, Cláudia, Maria, Cibele, Alessandra, Bete, Carlos, Patrícia, Tati, Fátima, Cris, Fernanda, Natália, Jamile, Leia, Márcia, Neusa, Alice, Silvana e quem mais chegar...!
Referência Bibliográfica: Professora SIM, Tia NÃO - Cartas a quem ousa ensinar
Paulo Freire - Ed. Olho d´agua.